Uso Prolongado de Psicotrópicos Está Associado à Perda Óssea em Homens, Aponta Estudo Longitudinal

Um estudo longitudinal publicado no BJPsych Open traz evidências robustas de que o uso de medicações psicotrópicas — especialmente antidepressivos e anticonvulsivantes — está associado à redução progressiva da densidade mineral óssea (DMO) em homens adultos, com impacto clínico potencialmente relevante para risco de osteoporose e fraturas.

Desenho do Estudo: Acompanhamento por Mais de Uma Década

A análise incluiu 940 homens com idade ≥20 anos, participantes do Geelong Osteoporosis Study (Austrália), acompanhados por um período mediano de 13,2 anos.

A DMO foi avaliada em coluna lombar e quadril em três momentos (baseline, 5 e 15 anos), utilizando densitometria por DXA.

Principais Achados: Perda Óssea Associada ao Uso de Psicotrópicos

O uso de psicotrópicos (antidepressivos, antipsicóticos e anticonvulsivantes) esteve associado a:

  • Redução significativa da DMO na coluna
    • Diferença média: −0,063 g/cm² (p < 0,001)
  • Redução significativa da DMO no quadril
    • Diferença média: −0,038 g/cm² (p < 0,001)

Esses efeitos permaneceram significativos após ajuste para múltiplos fatores, incluindo idade, IMC, tabagismo, álcool, atividade física, comorbidades psiquiátricas e uso de outras medicações.

IMC Como Fator Modificador: Maior Risco em Não Obesos

Um dos achados mais relevantes foi o papel do índice de massa corporal (IMC):

A associação entre psicotrópicos e perda óssea foi significativa em homens com IMC baixo ou intermediário, mas não foi observada em indivíduos com IMC mais elevado.

Isso sugere um possível efeito protetor do maior peso corporal sobre a massa óssea — fenômeno já descrito em outros estudos.

Diferenças Entre Classes de Psicotrópicos

  • Antidepressivos (especialmente ISRS):
    • Associados à perda óssea, principalmente em indivíduos com menor IMC
  • Anticonvulsivantes:
    • Associação consistente com redução de DMO, mesmo após ajustes
  • Antipsicóticos:
    • Não apresentaram associação significativa neste estudo

Mecanismos Possíveis

Os autores destacam que a relação entre psicotrópicos e saúde óssea é multifatorial:

  • Efeitos diretos no metabolismo ósseo
  • Aumento do risco de quedas
  • Alterações hormonais (cortisol, vitamina D, testosterona)
  • Fatores comportamentais associados aos transtornos mentais (sedentarismo, tabagismo, álcool)

Implicações Clínicas

Mesmo reduções modestas de DMO ao longo do tempo podem ser clinicamente relevantes.

Valores de perda superiores a:

  • 0,057 g/cm² na coluna
  • 0,046 g/cm² no quadril

já estão associados a aumento do risco de fraturas.

Diante disso, os autores recomendam:

  • Monitoramento regular da saúde óssea em pacientes em uso crônico de psicotrópicos
  • Estratégias preventivas (ex.: vitamina D, cálcio, exercício resistido)
  • Avaliação individualizada de risco-benefício

Conclusão

O estudo reforça que o tratamento psiquiátrico, muitas vezes de longo prazo, deve incorporar uma visão integrada da saúde física.

A perda óssea associada ao uso de psicotrópicos, especialmente em homens não obesos, emerge como um fator clínico relevante e potencialmente modificável.

Referência

Weerasinghe DK, Stuart AL, Pasco JA, Mohebbi M, Hodge JM, Samarasinghe RM, et al. Psychotropic medication use and bone loss in men: longitudinal study. BJPsych Open. 2026;12:e89. doi: 10.1192/bjo.2026.10985.