Síndrome das Pernas Inquietas Afeta Cerca de 3% dos Adultos e Requer Mudança no Paradigma Terapêutico

Uma revisão abrangente publicada no JAMA destaca que a síndrome das pernas inquietas (SPI) — também conhecida como doença de Willis-Ekbom — permanece subdiagnosticada e frequentemente tratada de forma inadequada, apesar de afetar aproximadamente 3% dos adultos com sintomas clinicamente significativos terapêutico.

O artigo, assinado por John W. Winkelman e Benjamin Wipper, revisa aspectos epidemiológicos, fisiopatológicos, diagnósticos e terapêuticos da SPI, enfatizando atualizações importantes nas recomendações de tratamento.

Características Clínicas e Impacto Funcional

A SPI é caracterizada por uma necessidade irresistível de mover os membros, geralmente as pernas, frequentemente acompanhada de sensações desagradáveis como formigamento, queimação ou desconforto profundo. Os sintomas:

  • surgem ou pioram em repouso,
  • melhoram com movimento,
  • são mais intensos à noite,
  • comprometem o início e a manutenção do sono.

Estima-se que cerca de 8% dos adultos norte-americanos apresentem sintomas em algum momento do ano, mas aproximadamente 3% sofrem com manifestações moderadas ou graves ao menos duas vezes por semana.

O impacto clínico vai além do sono: pacientes com SPI apresentam maior prevalência de depressão (30,4%), transtornos de ansiedade, doença cardiovascular (29,6%) e risco aumentado de ideação suicida ou autoagressão.

Fatores de Risco e Condições Associadas

A revisão destaca prevalências elevadas em grupos específicos:

  • Esclerose múltipla (27,5%)
  • Doença renal terminal (24%)
  • Anemia ferropriva (23,9%)
  • Gravidez (até 22% no terceiro trimestre)
  • Neuropatias periféricas (21,5%)
  • Doença de Parkinson (20%).

Mulheres são duas vezes mais afetadas que homens, e a prevalência pode alcançar 10% em indivíduos acima de 65 anos.

Fisiopatologia: Ferro Cerebral e Dopamina

Evidências apontam para:

  • disfunção no metabolismo do ferro cerebral,
  • predisposição genética (herdabilidade estimada até 70%),
  • alterações na neurotransmissão dopaminérgica estriatal.

Curiosamente, muitos pacientes apresentam níveis séricos de ferro normais, mas redução de ferro cerebral detectada por métodos neuropatológicos e de neuroimagem.

Diagnóstico é Clínico

A SPI é um diagnóstico clínico baseado nos critérios do International Classification of Sleep Disorders. A polissonografia não é recomendada para diagnóstico, embora possa identificar movimentos periódicos dos membros durante o sono.

Todos os pacientes devem realizar avaliação de ferritina e saturação de transferrina.

Ferro Como Tratamento de Primeira Linha

A reposição de ferro é recomendada para pacientes com:

  • ferritina ≤100 ng/mL
  • ou
  • saturação de transferrina <20%.

A administração pode ser oral (sulfato ferroso 325–650 mg/dia) ou intravenosa (1.000 mg), sendo esta última preferida quando ferritina estiver entre 75–100 ng/mL ou houver intolerância gastrointestinal.

Gabapentinoides Superam Agonistas Dopaminérgicos Como Primeira Linha

Um dos principais pontos da revisão é a mudança de paradigma terapêutico. Embora agonistas dopaminérgicos (pramipexol, ropinirol, rotigotina) sejam eficazes no curto prazo, seu uso prolongado está associado ao fenômeno de augmentation — piora iatrogênica progressiva dos sintomas, com incidência anual de 7% a 10%.

Por esse motivo, diretrizes atuais recomendam gabapentinoides (gabapentina, pregabalina, gabapentina enacarbil) como primeira linha para tratamento diário.

Ensaios clínicos demonstram que aproximadamente 70% dos pacientes tratados com gabapentinoides apresentam melhora clínica significativa, versus cerca de 40% com placebo.

Opioides em Casos Refratários

Para casos refratários ou com augmentation, opioides em baixas doses (metadona 2,5–20 mg/dia, buprenorfina 0,5–6 mg/dia ou oxicodona-naloxona) podem ser considerados, com monitoramento rigoroso.

Prognóstico e Risco Cardiovascular

Pacientes com SPI apresentam maior risco de eventos cardiovasculares e mortalidade. Estudos observacionais sugerem que tratamento adequado pode reduzir risco cardiovascular em aproximadamente 13%.

Apesar disso, mesmo com tratamento, muitos pacientes mantêm sintomas residuais e comprometimento do sono.

Conclusão

A síndrome das pernas inquietas é uma condição prevalente, multifatorial e frequentemente negligenciada. O reconhecimento precoce, a correção de deficiência de ferro e o uso preferencial de gabapentinoides representam pilares atuais do manejo. A vigilância quanto à augmentation com dopaminérgicos é essencial na prática clínica.

A revisão reforça a necessidade de maior conscientização entre clínicos gerais e especialistas, dada a carga funcional e cardiovascular associada à condição.

Referência

Winkelman JW, Wipper B. Restless Legs Syndrome: A Review. JAMA. 2026 Feb 24;335(8):703-714. doi: 10.1001/jama.2025.23247. PMID: 41563785.