Perda Muscular com Agonistas de GLP-1: Motivo de Preocupação ou Resposta Esperada ao Emagrecimento?

O avanço dos agonistas do receptor de GLP-1 e dos agonistas duais de GIP/GLP-1 transformou o tratamento da obesidade. Ao mesmo tempo, a magnitude e a velocidade do emagrecimento trouxeram uma questão para a prática clínica: quanto do peso perdido corresponde à massa muscular e qual é a relevância funcional dessa redução?

O tema foi debatido durante as Sessões Científicas de 2026 da American Diabetes Association. A discussão não se limita a saber se ocorre redução de massa magra — ela ocorre —, mas se essa perda é desproporcional, se representa músculo contrátil e se provoca diminuição de força ou desempenho físico.¹⁻⁴

Massa Magra Não é Sinônimo de Músculo

Uma das principais dificuldades na interpretação dos estudos é a utilização da massa magra como marcador substituto de massa muscular. A massa magra medida por absorciometria de dupla energia (DXA) inclui músculo esquelético, mas também água, órgãos, tecido conjuntivo e componentes ósseos. Mudanças de hidratação ou redução do volume de órgãos e da gordura infiltrada podem, portanto, aparecer como perda de massa magra sem representar perda equivalente de fibras musculares.²,³

Também é esperado que algum tecido magro seja perdido durante qualquer emagrecimento relevante, seja por restrição calórica, intervenção comportamental, cirurgia bariátrica ou medicamentos. Por isso, a pergunta mais útil é se a proporção perdida é maior que a esperada e se há comprometimento funcional.

O Que Mostram Os Estudos de Composição Corporal?

Na análise exploratória do STEP 1, a semaglutida 2,4 mg reduziu o peso corporal em 15,0% em 68 semanas. A massa de gordura total diminuiu 19,3%, a gordura visceral caiu 27,4% e a massa magra foi reduzida em 9,7%. Apesar da redução absoluta, a proporção de massa magra no peso corporal aumentou cerca de 3 pontos percentuais, indicando melhora da relação entre massa magra e gordura.⁵

No subestudo por DXA do SURMOUNT-1, a tirzepatida reduziu o peso em 21,3%, a gordura em 33,9% e a massa magra em 10,9% após 72 semanas. Aproximadamente 75% do peso perdido correspondeu a gordura e 25% a massa magra — proporção semelhante à observada no grupo placebo.⁶

Uma metanálise de 2026, com sete ensaios randomizados e 821 participantes tratados em doses aprovadas para obesidade, encontrou redução absoluta média de 1,74 kg de massa magra. Ao mesmo tempo, a participação da massa magra no peso corporal aumentou 1,81%, porque a perda de gordura foi maior. A heterogeneidade para algumas estimativas foi elevada, e os estudos incluídos forneceram poucos dados de força ou capacidade física.⁷

Evidências Recentes Trazem uma Visão Mais Tranquilizadora

Um estudo translacional publicado no Cell Reports Medicine avaliou modelos animais e um pequeno conjunto de dados humanos. Os agonistas de GLP-1 reduziram predominantemente gordura corporal e massa hepática, acompanhados de diminuição pequena da massa muscular. Nos participantes avaliados, a força foi amplamente preservada, enquanto nos animais o desempenho físico foi mantido ou melhorado.³

Esses resultados sugerem que a queda observada em medidas globais de massa magra pode superestimar a perda de músculo funcional. Ainda assim, não encerram a discussão: os dados humanos são limitados, o seguimento é relativamente curto e populações vulneráveis permanecem sub-representadas.

Quem Merece Atenção Especial?

A redução de massa muscular pode ter impacto clínico maior quando a reserva funcional já é baixa. A vigilância deve ser reforçada em:

  • Pessoas idosas, frágeis ou com sarcopenia prévia;
  • Mulheres após a menopausa e pacientes com osteopenia ou osteoporose;
  • Pessoas com perda de peso muito rápida, baixo consumo alimentar ou sintomas gastrointestinais persistentes;
  • Pacientes com doença renal, câncer, insuficiência cardíaca, doenças neuromusculares ou períodos prolongados de imobilidade;
  • Indivíduos submetidos a dietas muito restritivas ou sem estímulo muscular regular.

Nesses grupos, uma perda aparentemente modesta pode contribuir para fragilidade, quedas, fraturas e perda de independência. Estudos observacionais também levantam sinais de possível associação entre agonistas de GLP-1 e atrofia muscular, mas esse tipo de desenho não estabelece causalidade e está sujeito a confundimento pela própria obesidade, pelo diabetes e pela perda ponderal.⁸

Como Preservar Músculo Durante o Tratamento

A abordagem deve começar junto com a prescrição, e não apenas depois que a perda muscular é identificada. Na prática, quatro medidas são centrais:

  • Treinamento resistido progressivo, adaptado à capacidade e às limitações do paciente;
  • Ingestão proteica adequada, distribuída ao longo do dia e individualizada conforme idade, função renal e ingestão energética;
  • Evitar restrição calórica excessiva e considerar titulação mais lenta quando a ingestão estiver muito comprometida;
  • Acompanhar força, desempenho e sintomas, e não somente peso, IMC ou massa magra isolada.

Na ausência de indicação para avaliação sofisticada, perguntas sobre dificuldade para levantar-se de uma cadeira, subir escadas, carregar objetos ou realizar atividades habituais, associadas à avaliação de força de preensão ou ao teste de sentar e levantar, podem identificar declínio funcional. DXA, bioimpedância ou exames de imagem podem ser úteis quando o resultado tiver potencial para modificar a conduta.

O Que Ainda Não Sabemos

Ainda faltam estudos longos, desenhados especificamente para avaliar massa muscular, força, desempenho físico, quedas e fraturas. A maior parte das evidências deriva de análises exploratórias de ensaios de emagrecimento, com métodos diferentes de composição corporal e poucas pessoas idosas ou frágeis.

Também estão em desenvolvimento combinações de terapias incretínicas com agentes capazes de bloquear vias da miostatina ou da activina. Embora resultados iniciais indiquem maior preservação de massa magra, ainda não está demonstrado que essas estratégias melhorem desfechos funcionais ou clínicos de longo prazo.

Conclusão

Os agonistas de GLP-1 podem reduzir a massa magra em termos absolutos, mas a gordura costuma responder pela maior parte do peso perdido, levando a uma composição corporal proporcionalmente mais favorável. Os dados disponíveis não demonstram, de forma consistente, perda desproporcional de músculo funcional na população geral tratada.

Isso não significa ignorar o risco. Em pacientes idosos, frágeis ou com baixa reserva muscular, o tratamento deve incorporar avaliação funcional, alimentação adequada e exercício resistido desde o início. A mensagem prática é substituir o foco exclusivo no peso por uma avaliação da qualidade do emagrecimento.

Referências

  1. Tucker ME. Should we be concerned about muscle loss with GLP-1s? Medscape Medical News. 2026 Jul 24;[dado não informado]([dado não informado]):[dado não informado]. [DOI/URL: dado não informado].
  2. Linge J, Birkenfeld AL, Neeland IJ. Muscle mass and glucagon-like peptide-1 receptor agonists: adaptive or maladaptive response to weight loss? Circulation. 2024;150([dado não informado]):1288-1298. [DOI/URL: dado não informado].
  3. Langer HT, Gilmore NK, Hayden CMT, et al. Weight loss with GLP-1 medicines does not result in a disproportionate loss of muscle mass or function in obese mice and humans. Cell Rep Med. 2026;7(3):102665. doi: 10.1016/j.xcrm.2026.102665.
  4. Stefanakis K, Kokkorakis M, Mantzoros CS. The impact of weight loss on fat-free mass, muscle, bone and hematopoiesis health: implications for emerging pharmacotherapies aiming at fat reduction and lean mass preservation. Metabolism. 2024;161([dado não informado]):156057. [DOI/URL: dado não informado].
  5. Wilding JPH, Batterham RL, Calanna S, et al. Once-weekly semaglutide in adults with overweight or obesity. N Engl J Med. 2021;384(11):989-1002. doi: 10.1056/NEJMoa2032183.
  6. Look M, Dunn JP, Kushner RF, et al. Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study of adults with obesity or overweight. Diabetes Obes Metab. 2025;27(4):1795-1805. doi: 10.1111/dom.16275.
  7. Laverde LP, Muñoz-Velandia OM, Alfonso D, et al. Effect of GLP-1 receptor agonists at doses for obesity management on muscle health: systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Int J Obes (Lond). 2026;50([dado não informado]):1638-1646. doi: 10.1038/s41366-026-02118-y.
  8. Kwan ATH, Lakhani M, McIntyre RS. Muscle atrophy associated with glucagon-like peptide-1 receptor agonists: a population-based observational study. Clin Nutr. 2026;60([dado não informado]):106620. doi: 10.1016/j.clnu.2026.106620.