Fadiga e ‘Névoa Mental’ Podem Persistir Mesmo Após o Controle do Prolactinoma

O acompanhamento do prolactinoma costuma se concentrar na normalização dos níveis de prolactina, no controle tumoral e na recuperação da função gonadal. Entretanto, novas evidências mostram que algumas pacientes podem continuar apresentando fadiga, alterações emocionais e dificuldades cognitivas mesmo após alcançarem o controle bioquímico da doença.

Um estudo publicado no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism avaliou 60 pacientes com prolactinoma bioquimicamente controlado e 60 indivíduos saudáveis, pareados por idade, sexo e escolaridade. A maioria dos participantes era composta por mulheres. Os pacientes estavam em tratamento estável com agonistas dopaminérgicos ou em remissão após cirurgia transesfenoidal.¹

Os participantes foram submetidos a uma bateria de oito testes cognitivos e responderam a sete questionários validados sobre sintomas psicológicos, fadiga e características comportamentais.

Alterações Cognitivas Persistiram Após a Normalização Hormonal

Em comparação com os controles, os pacientes com prolactinoma apresentaram desempenho significativamente inferior em diferentes domínios:

  • Memória verbal: redução média de 1,8 palavra no Teste de Aprendizagem Verbal de Rey;
  • Atenção seletiva: menor número de acertos no teste de cancelamento de dígitos e maior tempo para completar o Trail Making Test A;
  • Velocidade de processamento: menor desempenho no teste de substituição de dígitos por símbolos.¹

As funções executivas e a capacidade de alternar entre tarefas, por outro lado, foram semelhantes entre os dois grupos. Embora as diferenças tenham sido consideradas sutis, elas confirmam objetivamente que queixas frequentemente descritas pelos pacientes como “névoa mental” podem persistir mesmo quando a prolactina se encontra dentro dos valores de referência.

Na avaliação subjetiva, aproximadamente metade dos pacientes relatou problemas de memória ou concentração, enquanto cerca de 40% referiram alterações de humor.¹

Fadiga, Apatia e Sintomas Emocionais Também Foram Mais Frequentes

Além das alterações cognitivas, os pacientes apresentaram pontuações mais elevadas para fadiga, apatia, irritabilidade, ansiedade, sintomas depressivos, somatização e afetividade negativa.¹

A diferença relacionada à fadiga foi particularmente relevante: os pacientes apresentaram aumento médio de 6,7 pontos na Escala de Gravidade da Fadiga em comparação com os controles.

Um aspecto importante foi a ausência de diferenças significativas entre os pacientes que continuavam utilizando agonistas dopaminérgicos, principalmente cabergolina, e aqueles que estavam em remissão cirúrgica e sem medicação havia pelo menos seis meses.¹,²

Esse achado não permite excluir completamente a participação dos medicamentos, especialmente porque muitos dos pacientes operados haviam recebido tratamento farmacológico anteriormente. Entretanto, sugere que as manifestações cognitivas e emocionais não devem ser atribuídas automaticamente aos agonistas dopaminérgicos.

Por Que os Sintomas Podem Permanecer?

Os mecanismos responsáveis ainda não estão completamente esclarecidos. Entre as hipóteses discutidas estão:

  • Alterações cerebrais induzidas previamente pela hiperprolactinemia;
  • Modificações persistentes da atividade dopaminérgica;
  • Efeitos do hipogonadismo ou de outras deficiências hipofisárias;
  • Influência de sintomas ansiosos, depressivos e distúrbios do sono;
  • Impacto psicológico de conviver com uma doença endócrina crônica.

Estudos anteriores identificaram alterações estruturais e funcionais em regiões relacionadas à memória, à atenção e ao controle emocional em pacientes com hiperprolactinemia. No entanto, ainda não está claro se essas alterações são totalmente reversíveis após o tratamento.¹

Uma revisão sistemática também mostrou que o tratamento do prolactinoma pode melhorar a qualidade de vida e o bem-estar psicológico, mas nem sempre promove sua completa normalização.³

Implicações Para a Prática Clínica

Os resultados reforçam que o controle laboratorial não deve ser considerado isoladamente como sinônimo de recuperação clínica completa. Durante o seguimento, pode ser útil investigar ativamente:

  • Fadiga persistente e qualidade do sono;
  • Dificuldade de concentração, queixas de memória e redução da produtividade;
  • Apatia, irritabilidade, ansiedade e sintomas depressivos;
  • Impacto da doença sobre trabalho, relacionamentos e atividades cotidianas.

Instrumentos breves e validados, como a Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão, escalas de fadiga e questionários específicos para doenças hipofisárias, podem auxiliar na identificação das pacientes que necessitam de avaliação mais aprofundada.

Também é importante pesquisar diagnósticos diferenciais e fatores agravantes, incluindo anemia, distúrbios da tireoide, deficiências nutricionais, menopausa, privação de sono, outras alterações hipofisárias e efeitos adversos medicamentosos. Quando indicado, o cuidado pode envolver endocrinologista, neurologista, psiquiatra, psicólogo ou profissional especializado em reabilitação cognitiva.

Resultados Devem Ser Interpretados com Cautela

O estudo apresenta limitações importantes. Seu desenho transversal não permite determinar se as alterações foram provocadas pelo prolactinoma, pelo tratamento ou por outros fatores. A amostra foi relativamente pequena, e pacientes com transtornos psiquiátricos previamente diagnosticados foram excluídos — o que pode ter subestimado a magnitude real do problema.

Além disso, não foram realizados ajustes estatísticos para todas as comparações múltiplas. Os resultados, portanto, não demonstram causalidade nem justificam mudanças automáticas no tratamento farmacológico ou cirúrgico.

Conclusão

Pacientes com prolactinoma podem continuar apresentando fadiga, alterações emocionais e déficits sutis de memória, atenção e velocidade de processamento mesmo após a normalização dos níveis de prolactina.

Para o médico, a principal mensagem é clara: o acompanhamento não deve terminar no resultado laboratorial. Perguntar sobre energia, concentração, memória, humor, sono e funcionamento cotidiano pode revelar uma carga residual da doença que merece avaliação e cuidado específicos.

Referências

  1. van Trigt VR, Andela CD, Bakker LEH, Brama SCM, Schmidt LE, Sneekes FM, et al. Subtle cognitive impairments and psychological complaints in patients with prolactinoma despite biochemical control. J Clin Endocrinol Metab. 2026;111(1):e9-e22. doi: 10.1210/clinem/dgaf355.
  2. Constantinescu SM, Maiter D. When the fog lingers: persistent cognitive and emotional burden in patients with a prolactinoma despite disease control. J Clin Endocrinol Metab. 2026;111(6):e1714-e1715. doi: 10.1210/clinem/dgaf458.
  3. Castle-Kirszbaum M, Biermasz N, Kam J, Goldschlager T. Quality of life in prolactinoma: a systematic review. Pituitary. 2024;27(3):239-247. doi: 10.1007/s11102-024-01392-1.
  4. Petersenn S, Fleseriu M, Casanueva FF, Giustina A, Biermasz N, Biller BMK, et al. Diagnosis and management of prolactin-secreting pituitary adenomas: a Pituitary Society international consensus statement. Nat Rev Endocrinol. 2023;19(12):722-740. doi: 10.1038/s41574-023-00886-5.