Agonistas do receptor GLP‑1 (GLP‑1 RAs) são amplamente usados no tratamento do diabetes tipo 2 e na obesidade, com benefícios cardiovasculares demonstrados (1-4). No entanto, associam‑se a eventos adversos que exigem vigilância clínica. Esta revisão sintetiza evidências sobre perfil de segurança, mecanismos plausíveis, fatores de risco, monitorização e manejo prático para médicos. Com uso crescente, é essencial reconhecer e manejar eventos adversos mais frequentes e raros.
Mecanismos Relevantes
- Efeitos gastrointestinais decorrentes de atraso do esvaziamento gástrico e sinalização central (náusea, vômito, saciedade) [5].
- Estímulo de células pancreáticas e efeitos inflamatórios sugeridos em alguns estudos experimentais; relação causal com pancreatite ou neoplasia pancreática permanece incerta [6].
- Estímulo crônico de células C da tireoide em roedores (resultado não diretamente transponível para humanos) levou a alertas regulatórios [7].
- Efeitos centrais e metabólicos que podem modificar apetite, humor e risco de hipoglicemia em combinação com secretagogos [5,8].
Eventos Adversos Principais e Manejo
Distúrbios gastrointestinais (frequentes)
- Náusea, vômito, diarreia, constipação. Início geralmente nas primeiras semanas, frequentemente dose‑dependente [5].
- Manejo: começar com dose baixa e titular lentamente; orientar refeições fracionadas; alimentar-se apenas quando sentir fome e parar logo que saciado; considerar antieméticos, mudança de formulação ou suspensão temporária [5].
Pancreatite aguda (raro, descrito)
- Relatos em estudos observacionais e alguns ensaios; meta‑análises de RCTs não mostraram aumento consistente do risco, mas vigilância contínua recomendada principalmente em pacientes com histórico de litíase ou etilismo importante [6].
- Manejo: suspeitar em caso de dor abdominal intensa; medir amilase/lipase; suspender GLP‑1 RA se pancreatite confirmada [6].
Cálculos biliares e colecistite
- A perda de peso associada e alterações da motilidade biliar aumentam risco de colelitíase e colecistite [9].
- Manejo: ultrassom se suspeita; considerar colecistectomia em casos recorrentes.
Hipoglicemia
- Risco baixo quando usados isoladamente; aumenta com sulfonilureias ou insulina [8].
- Manejo: reduzir dose de secretagogos/insulina ao iniciar; educar paciente.
Efeitos na tireoide (lesões em células-C)
- Estudos em roedores mostraram hiperplasia de células C e tumores; evidência humana não demonstra aumento consistente de carcinoma medular de tireoide (MTC) [7].
- Recomendações: evitar em pacientes com histórico pessoal/familiar de MTC ou síndrome MEN2; monitorar sintomas sugestivos de doença tireoidiana.
Reações de hipersensibilidade e locais de injeção
- Reações cutâneas locais, raramente anafilaxia; geralmente manejáveis com mudança de sítio/medicação [5].
- Manejo: interromper se reação sistêmica grave.
Efeitos psiquiátricos e neurológicos
- Relatos raros de alterações de humor; vigilância em pacientes com histórico psiquiátrico [10].
- Manejo: avaliar e monitorar, encaminhar conforme necessário.
Outros
- Queda de cabelo foi descrita em 10% dos casos, relacionada à perda de peso, reversível em 6 meses. Taquicardia transitória; monitorização clínica indicada [5,9]. Foram descritos 3 casos de neuropatia óptica anterior isquêmica nos últimos 5 anos, e não está clara a relação com o medicamento devido à concomitância de fatores de risco isquêmico. Mesmo assim, pacientes que apresentem piora súbita da visão devem procurar o oftalmologista imediatamente,
Em Suma, Riscos a Considerar e Recomendações Práticas
– Fatores de risco que aumentam probabilidade de eventos adversos: história prévia de pancreatite ou litíase biliar; perda de peso rápida; desidratação; uso concomitante de sulfonilureias/insulina; antecedente familiar de MTC/MEN2; doença psiquiátrica instável [6–8,10].
– Monitorização prática antes e durante o tratamento: avaliação basal da função renal, história de pancreatite/colelitíase, histórico familiar de MTC/MEN2, medicações concomitantes [5,7].
– Durante tratamento: educar sobre efeitos GI e hidratação; monitorar sintomas de pancreatite (lipase/amilase se suspeita), sinais de colelitíase/colecistite e alterações psiquiátricas; avaliar creatinina se vômitos intensos [5,6,9].
– Orientações para ajuste de medicação: reduzir ou suspender secretagogos/insulina ao iniciar para diminuir risco de hipoglicemia; titular doses lentamente conforme bula [8].
Suspender definitivamente em eventos graves atribuíveis ao GLP‑1 RA (pancreatite confirmada, reação alérgica grave, suspeita de MTC) [6,7].
– Comunicação do risco ao paciente: explicar benefícios (controle glicêmico, perda de peso, benefício CV em agentes específicos) e riscos mais prováveis (náuseas) e raros (pancreatite, problemas biliares). Fornecer instruções claras sobre quando procurar atendimento [1–4,5,6].
Conclusão
Embora existam várias precauções com os agonistas do GLP-1, o manejo é relativamente simples, e os benefícios dos GLP-1 superam em muito os efeitos adversos para a maioria das pessoas que vivem com diabetes tipo 2 ou obesidade.
Referências
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- Marso SP, Bain SC, Consoli A, et al. Semaglutide and cardiovascular outcomes in patients with type 2 diabetes (SUSTAIN-6). N Engl J Med. 2016;375:1834-1844.
- Gerstein HC, Colhoun HM, Dagenais GR, et al. Dulaglutide and cardiovascular outcomes in type 2 diabetes (REWIND). Lancet. 2019;394:121-130.
- Gerstein HC, Sattar N, Rosenstock J, et al. Cardiovascular and renal outcomes with efpeglenatide in type 2 diabetes (AMPLITUDE-O). N Engl J Med. 2021;385:864-874.
- Nauck MA, Meier JJ. Incretin-based therapies: where will we be 50 years from now? Diabetologia. 2018;61(5):1016-1023.
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- Smits MM, Tonneijck L, Muskiet MH, et al. GLP-1 based therapies and gallbladder disease: a systematic review and meta-analysis. Diabetes Obes Metab. 2016;18(4):318-332.
- Meier JJ. GLP-1 receptor agonists for individualized treatment of type 2 diabetes mellitus. Nat Rev Endocrinol. 2012;8(12):728-742.





