A Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) publicou em agosto de 2026 uma nova diretriz para o manejo da insuficiência cardíaca. Para os médicos da atenção primária, a mudança começa antes do diagnóstico: o documento organiza a doença em estágios que vão dos fatores de risco à insuficiência cardíaca avançada, com ênfase na prevenção, no reconhecimento precoce e no início oportuno do tratamento.¹,²
Uma Nova Divisão Pela Fração de Ejeção
A antiga categoria de insuficiência cardíaca com fração de ejeção levemente reduzida, de 41% a 49%, deixa de ser um fenótipo separado. A classificação passa a reunir os pacientes com fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE) inferior a 50% sob a denominação de insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida. A fração de ejeção preservada corresponde a FEVE de 50% ou mais. Segundo a ESC, a simplificação reflete semelhanças na fisiopatologia e na resposta terapêutica dos grupos antes classificados como reduzido e levemente reduzido.¹,²
A diretriz também adota os estágios A a D, do risco de desenvolver insuficiência cardíaca até a doença avançada. Na prática, a avaliação de pessoas com fatores de risco e a investigação de sintomas compatíveis ganham destaque no percurso assistencial, antes que o paciente chegue a uma descompensação.¹,²
O Que Mudou na Linguagem e no Tratamento
O termo “insuficiência cardíaca descompensada” substitui “insuficiência cardíaca aguda” como denominação geral da piora clínica. A ESC observa que a deterioração nem sempre começa de forma súbita; em apresentações menos graves, a avaliação e o manejo podem ocorrer em ambiente ambulatorial, conforme as condições clínicas do paciente.²
A organização das terapias também foi revista. A diretriz distingue o tratamento farmacológico fundamental, as terapias farmacológicas adicionais e as intervenções recomendadas, incluindo dispositivos e procedimentos. Essa nomenclatura procura deixar mais claro quais medidas têm recomendação ampla e quais se aplicam a situações clínicas específicas.¹,²
Novas Recomendações e Impacto na Consulta
Entre as atualizações destacadas pela ESC está uma recomendação de classe I para antagonistas do receptor mineralocorticoide na insuficiência cardíaca crônica, independentemente da FEVE. Para pacientes com fração de ejeção preservada e obesidade, semaglutida ou tirzepatida recebem recomendação de classe IIa. A decisão terapêutica individual continua a exigir avaliação das indicações, contraindicações e condições de acompanhamento descritas na diretriz.¹,²
O documento também atualiza recomendações para digoxina e digitoxina em cenários específicos, suporte circulatório mecânico duradouro e reparo transcateter da valva mitral. Para a atenção primária, a principal mensagem é reconhecer precocemente o risco e os sinais de insuficiência cardíaca, confirmar o fenótipo e organizar o seguimento e o encaminhamento de acordo com a gravidade e a possibilidade de tratamento.¹,²
A diretriz europeia oferece um referencial científico atualizado. Sua aplicação no Brasil deve considerar a avaliação clínica individual, os protocolos locais e a disponibilidade dos tratamentos.¹
Referências
1. Køber L, Adamo M, Ruwald AC, et al. 2026 ESC Guidelines for the management of heart failure. Eur Heart J. 2026 Aug 28:ehag100. doi:10.1093/eurheartj/ehag100. Disponível em: https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehag100
2. European Society of Cardiology. Major changes made to the ESC Guidelines on heart failure [Internet]. Sophia Antipolis: ESC; 2026 Aug 28 [citado em 2026 set 24]. Disponível em: https://www.escardio.org/news/press/press-releases/major-changes-made-to-the-esc-guidelines-on-heart-failure/
3. Fernando K. Heart failure rewritten: what the 2026 ESC guidelines mean for primary care [Internet]. Medscape; 2026 Sep 14 [citado em 2026 set 24]. Disponível em: https://www.medscape.com/viewarticle/heart-failure-rewritten-what-2026-esc-guidelines-mean-2026a1000xc3





