Agonistas de GLP-1 Podem Se Tornar Uma Nova Estratégia Contra Dependências?

Estudos com semaglutida apontam redução do consumo e do desejo por álcool, enquanto dados observacionais sugerem possíveis efeitos sobre nicotina, opioides, cocaína e cannabis. Apesar do entusiasmo, as evidências ainda não sustentam o uso rotineiro da classe para tratar transtornos por uso de substâncias.

Os agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon 1, conhecidos como agonistas de GLP-1, transformaram o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Agora, medicamentos dessa classe, especialmente a semaglutida, começam a ser investigados em uma área bastante diferente: o tratamento dos transtornos por uso de substâncias.

O interesse surgiu inicialmente a partir de relatos de pacientes que, após iniciar o tratamento para diabetes ou obesidade, perceberam menor vontade de consumir bebidas alcoólicas, fumar ou adotar outros comportamentos compulsivos. Estudos pré-clínicos e observacionais reforçaram essa hipótese, mas as evidências humanas mais consistentes até o momento se concentram no transtorno por uso de álcool. [1-5]

Ensaio Clínico Mostra Redução Do Consumo Pesado De Álcool

Um ensaio clínico publicado em 2026 no The Lancet avaliou 108 adultos com transtorno por uso de álcool moderado ou grave e obesidade. Os participantes foram randomizados para receber semaglutida subcutânea, titulada até 2,4 mg por semana, ou placebo durante 26 semanas. Todos também receberam terapia cognitivo-comportamental. [1]

A proporção de dias de consumo pesado de álcool caiu 41,1 pontos percentuais no grupo tratado com semaglutida, em comparação com uma redução de 26,4 pontos percentuais no grupo placebo. A diferença estimada entre os grupos foi de 13,7 pontos percentuais, estatisticamente significativa.

Também foram observadas reduções no consumo total mensal, no número de doses ingeridas por ocasião de consumo, no desejo por álcool e em instrumentos utilizados para avaliar o uso nocivo da substância. Os eventos adversos foram principalmente gastrointestinais, geralmente transitórios e de intensidade leve a moderada, mas ocorreram com maior frequência entre os participantes que receberam semaglutida. [1]

Os resultados são relevantes porque o estudo incluiu pessoas que estavam procurando tratamento e acompanhou os participantes por aproximadamente seis meses. Entretanto, foi realizado em um único centro, envolveu uma amostra relativamente pequena e selecionou apenas indivíduos que também apresentavam obesidade. Não está claro, portanto, se os resultados podem ser reproduzidos em pessoas sem excesso de peso.

Outro ensaio clínico, publicado em 2025 no JAMA Psychiatry, havia avaliado 48 adultos com transtorno por uso de álcool que não estavam buscando tratamento. Durante nove semanas, doses relativamente baixas de semaglutida reduziram a quantidade de álcool consumida em um experimento controlado de autoadministração, além do número de doses por dia de consumo e da intensidade semanal do desejo por álcool. [2]

A semaglutida, no entanto, não reduziu significativamente o número total de dias em que os participantes beberam nem a média de doses calculada considerando todos os dias do estudo. O resultado sugere que o medicamento pode diminuir a intensidade do consumo e o craving antes de produzir abstinência ou redução consistente da frequência de consumo. [2]

Possível Efeito Sobre Diferentes Substâncias

Em março de 2026, um estudo de coorte publicado no BMJ analisou prontuários de 606.434 veteranos norte-americanos com diabetes tipo 2. Os pesquisadores compararam pessoas que iniciaram agonistas de GLP-1 com aquelas que iniciaram inibidores de SGLT2. [3]

O uso de agonistas de GLP-1 foi associado a menor risco de novos diagnósticos relacionados ao uso de:

  • álcool: redução relativa de 18%;
  • cannabis: 14%;
  • cocaína: 20%;
  • nicotina: 20%;
  • opioides: 25%.

Entre pacientes que já apresentavam transtornos por uso de substâncias, o início de um agonista de GLP-1 também foi associado a menores riscos de atendimento em pronto-socorro, hospitalização, overdose e mortalidade relacionada ao uso de substâncias. [3]

Esses números chamam atenção pela aparente consistência entre diferentes substâncias. Contudo, o desenho observacional não permite concluir que os medicamentos foram responsáveis pelos resultados. Diferenças clínicas, socioeconômicas ou comportamentais entre os pacientes, além de fatores não registrados nos prontuários, podem ter influenciado as associações.

A população estudada também era formada predominantemente por homens, veteranos militares e pessoas com diabetes tipo 2, o que limita a generalização dos achados.

Estudos anteriores de prontuários eletrônicos já haviam relacionado a semaglutida a riscos menores de incidência e recorrência do transtorno por uso de álcool. Em uma análise de pessoas com obesidade, a prescrição do medicamento foi associada a uma redução de aproximadamente 50% a 56% nesses desfechos, em comparação com outros medicamentos para controle do peso. Novamente, trata-se de associação observacional, e não de demonstração de eficácia terapêutica. [4]

Como os Medicamentos Poderiam Atuar Sobre a Dependência?

Os receptores de GLP-1 não estão restritos ao pâncreas ou ao sistema gastrointestinal. Eles também estão presentes em regiões cerebrais envolvidas na motivação, na recompensa e no controle do comportamento, incluindo áreas relacionadas ao sistema dopaminérgico mesolímbico.

Uma das hipóteses é que a ativação desses receptores reduza a liberação de dopamina desencadeada por álcool e outras drogas, diminuindo o valor de recompensa associado ao consumo. Outros mecanismos possíveis incluem modulação das respostas ao estresse, redução da impulsividade, alterações no aprendizado relacionado às pistas de consumo e efeitos anti-inflamatórios no sistema nervoso. [4,5]

Também é possível que mecanismos periféricos contribuam para os resultados. Náuseas, menor apetite, esvaziamento gástrico mais lento e alterações na absorção do álcool podem reduzir o interesse ou o prazer associado à bebida. Ainda não está esclarecido quanto dos efeitos observados decorre de uma ação específica sobre os circuitos da dependência e quanto está relacionado à perda de peso ou aos efeitos gastrointestinais.

Ainda Não é um Tratamento Estabelecido

Apesar dos resultados promissores, os agonistas de GLP-1 não possuem indicação aprovada especificamente para o tratamento dos transtornos por uso de álcool, nicotina, opioides, cocaína ou outras substâncias.

Para álcool, já existem dois ensaios randomizados com semaglutida mostrando sinais clínicos favoráveis. Para nicotina, os resultados dos estudos disponíveis são heterogêneos. Para opioides, cocaína, cannabis e estimulantes, a maior parte das evidências ainda provém de modelos animais, análises de prontuários e estudos observacionais. [3,5]

Também permanecem questões importantes:

  • o benefício ocorre independentemente da perda de peso?
  • pacientes sem obesidade responderão da mesma forma?
  • qual é a dose mais adequada?
  • o efeito desaparece após a suspensão?
  • quais pacientes apresentam maior probabilidade de resposta?
  • como esses medicamentos devem ser combinados com psicoterapia e tratamentos farmacológicos já estabelecidos?
  • quais são os riscos em pacientes com comorbidades psiquiátricas, gastrointestinais ou nutricionais?

Um ensaio clínico de fase 3 já foi registrado para avaliar semaglutida em veteranos norte-americanos com transtorno por uso de álcool moderado ou grave, indicando que a hipótese começou a avançar para estudos confirmatórios de maior porte. [6]

Por enquanto, os agonistas de GLP-1 devem ser vistos como uma linha de pesquisa relevante, mas não como substitutos dos tratamentos aprovados, das intervenções psicossociais ou do acompanhamento especializado em dependência química.

Os resultados obtidos com o transtorno por uso de álcool representam um avanço em relação aos relatos anedóticos iniciais. Ainda assim, será necessário demonstrar eficácia sustentada, segurança e aplicabilidade em populações mais amplas antes que a classe possa ser incorporada rotineiramente à medicina da dependência.

Referências

  1. Klausen MK, Justesen SK, Pedersen JN, Rasmussen L, Jensen A, Jensen ME, et al. Once-weekly semaglutide versus placebo in patients with alcohol use disorder and comorbid obesity: a randomised, double-blind, placebo-controlled trial. Lancet. 2026;407(10540):1687-1698. doi:10.1016/S0140-6736(26)00305-3.
  2. Hendershot CS, Bremmer MP, Paladino MB, Kostantinis G, Gilmore TA, Sullivan NR, et al. Once-weekly semaglutide in adults with alcohol use disorder: a randomized clinical trial. JAMA Psychiatry. 2025;82(4):395-405. doi:10.1001/jamapsychiatry.2024.4789.
  3. Cai M, Choi T, Xie Y, Al-Aly Z. Glucagon-like peptide-1 receptor agonists and risk of substance use disorders among US veterans with type 2 diabetes: cohort study. BMJ. 2026;392:e086886. doi:10.1136/bmj-2025-086886.
  4. Wang W, Volkow ND, Berger NA, Davis PB, Kaelber DC, Xu R. Associations of semaglutide with incidence and recurrence of alcohol use disorder in real-world population. Nat Commun. 2024;15:4548. doi:10.1038/s41467-024-48780-6.
  5. Völker KM, Prechtl BLH, Bormann NL, Choi DS. The potential role of GLP-1 receptor agonists in substance use disorders: a systematic review. Front Pharmacol. 2026;16:1702448. doi:10.3389/fphar.2025.1702448.
  6. ClinicalTrials.gov. Cessation or reduction of alcohol consumption in veterans: a randomized, double-blind, placebo-controlled phase 3 trial to evaluate the efficacy and safety of semaglutide in US veterans with alcohol use disorder. Identifier NCT07218354. 2026.