Estudo observacional identificou menor mortalidade por todas as causas e menor risco de recorrência ou morte entre pacientes com obesidade ou diabetes tipo 2 que receberam medicamentos da classe.
Os agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon 1, conhecidos como agonistas de GLP-1, podem estar associados a melhores desfechos em mulheres com câncer de mama e comorbidades metabólicas. Em um estudo retrospectivo publicado no JAMA Network Open, o uso desses medicamentos foi relacionado a menor mortalidade por todas as causas e maior sobrevida livre de recorrência entre pacientes com obesidade ou diabetes tipo 2.¹
A análise utilizou dados da rede norte-americana TriNetX, que reúne prontuários eletrônicos de diferentes instituições de saúde. Foram inicialmente identificadas 841.831 mulheres adultas, com média de idade de 69,1 anos, diagnosticadas com câncer de mama entre abril de 2006 e abril de 2023. Foram incluídas pacientes com doença nos estágios I a III, enquanto aquelas com câncer metastático ou histórico de outras neoplasias foram excluídas.
O uso de agonistas de GLP-1 foi definido pela presença de pelo menos duas prescrições, registradas nos seis meses anteriores ou em algum momento posterior ao diagnóstico do câncer de mama. Para reduzir diferenças entre os grupos, os pesquisadores utilizaram pareamento por escore de propensão, técnica estatística que procura equilibrar características clínicas e demográficas potencialmente relacionadas ao tratamento e aos desfechos.
Entre as pacientes com obesidade e sem diabetes tipo 2, foram comparadas 1.610 usuárias de agonistas de GLP-1 com 1.610 não usuárias. Após os ajustes estatísticos, o tratamento foi associado a uma redução relativa de 58% no risco de morte por qualquer causa durante o acompanhamento de até dez anos, com hazard ratio ajustado de 0,42. Também foi observada redução de 44% no risco relacionado à recorrência ou morte, com hazard ratio ajustado de 0,56.
A probabilidade estimada de sobrevida entre as pacientes com obesidade que utilizaram agonistas de GLP-1 foi de 97,4% em cinco anos e 96,0% em dez anos. Entre as não usuárias, as probabilidades foram de 93,2% e 88,6%, respectivamente.
No grupo com diabetes tipo 2, 2.323 usuárias de agonistas de GLP-1 foram comparadas com igual número de pacientes tratadas com insulina ou metformina. Nessa análise, o uso dos agonistas de GLP-1 foi associado a redução de 88% no risco ajustado de mortalidade por todas as causas e de 56% no risco ajustado de recorrência ou morte.
Entretanto, os resultados foram menos expressivos quando os agonistas de GLP-1 foram comparados aos inibidores do cotransportador de sódio-glicose tipo 2, ou inibidores de SGLT2. Nas análises não ajustadas, não houve diferença estatisticamente significativa entre as duas classes quanto à mortalidade ou à sobrevida livre de recorrência. Embora alguns modelos ajustados tenham favorecido os agonistas de GLP-1, esse benefício não foi confirmado de maneira consistente nas análises de sensibilidade.
Os mecanismos que poderiam explicar as associações ainda não estão estabelecidos. A perda de peso, a melhora do controle glicêmico, a redução do risco cardiovascular e alterações metabólicas ou inflamatórias são algumas das hipóteses. Estudos pré-clínicos também levantam a possibilidade de efeitos relacionados à sinalização do receptor de GLP-1 no ambiente tumoral, mas não existem evidências suficientes para atribuir um efeito antineoplásico direto à classe.¹ ²
Os resultados devem ser interpretados com cautela. Por se tratar de uma análise retrospectiva de prontuários eletrônicos, não é possível afirmar que os medicamentos tenham causado a melhora da sobrevida. A exposição foi definida por apenas duas ou mais prescrições, sem informações confiáveis sobre adesão, duração do tratamento, doses utilizadas ou mudanças de peso durante o acompanhamento.
Também não foi possível avaliar separadamente cada medicamento da classe. Além disso, o estudo analisou mortalidade por todas as causas, e não mortalidade específica por câncer de mama. Dados importantes, como características moleculares do tumor, tratamentos oncológicos completos e circunstâncias da recorrência, estavam incompletos para uma parcela relevante das pacientes.
Outro ponto de atenção foi a redução acentuada do número de pacientes acompanhadas após aproximadamente cinco anos, o que diminui a precisão das estimativas de dez anos. O tamanho incomum das associações encontradas, especialmente na comparação com insulina ou metformina, também reforça a possibilidade de confundimento residual, diferenças não mensuradas entre os grupos e vieses de seleção.
Embora os achados sejam promissores, os agonistas de GLP-1 não devem ser prescritos como tratamento do câncer de mama com base nesse estudo. Os resultados apoiam a realização de estudos prospectivos e ensaios clínicos randomizados para determinar se existe benefício oncológico independente da perda de peso e do controle metabólico.
No momento, a principal implicação clínica é que pacientes com câncer de mama que também apresentem indicação estabelecida para tratamento da obesidade ou do diabetes tipo 2 podem utilizar agonistas de GLP-1 após avaliação individualizada e acompanhamento multidisciplinar. A eventual incorporação desses medicamentos às estratégias de tratamento ou prevenção da recorrência do câncer dependerá de evidências prospectivas mais robustas.
Referências
- Tatum KL, Dahman B, Stevenson A, Williford SE, Cassel JB, Zhao H, et al. Survival and recurrence with GLP-1 receptor agonists in breast cancer. JAMA Netw Open. 2026;9(5):e2612133. doi: 10.1001/jamanetworkopen.2026.12133.
- Wender RC. GLP-1 receptor agonists and cancer—the promise is real. JAMA Netw Open. 2026;9(5):e2612143. doi: 10.1001/jamanetworkopen.2026.12143.
- Petrelli F, Cortellini A, Indini A, Tomasello G, Ghidini M, Nigro O, et al. Association of obesity with survival outcomes in patients with cancer: a systematic review and meta-analysis. JAMA Netw Open. 2021;4(3):e213520. doi: 10.1001/jamanetworkopen.2021.3520.





