Uma análise secundária de um ensaio clínico randomizado publicada na Clinical Obesity sugere que a liraglutida (agonista do receptor de GLP-1) pode reduzir significativamente a gravidade da apneia obstrutiva do sono (AOS) em indivíduos com obesidade/sobrepeso e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Os resultados também indicam melhoras parciais na qualidade de vida, embora sem impacto relevante na sonolência diurna.
População de Alto Risco: Sobreposição Entre Obesidade, DPOC e AOS
O estudo incluiu 40 participantes com DPOC e IMC >27 kg/m², randomizados para liraglutida (até 3,0 mg/dia) ou placebo por 40 semanas.
- 84% dos pacientes apresentavam AOS no baseline
- Idade média: ~65 anos
- IMC médio: ~35 kg/m²
A coexistência dessas condições — conhecida como overlap syndrome — está associada a maior morbidade, pior qualidade de vida e aumento de mortalidade.
Redução Significativa da Gravidade da Apneia
Após 40 semanas, o tratamento com liraglutida foi associado a:
- Redução do índice de apneia-hipopneia (AHI):
- Diferença ajustada: −9,87 eventos/h (p=0,044)
- Redução do índice de dessaturação de oxigênio (ODI):
- Diferença ajustada: −10,16 eventos/h (p=0,029)
Esses achados indicam uma redução objetiva da gravidade da AOS, possivelmente mediada por perda de peso e/ou efeitos diretos do GLP-1 sobre o controle respiratório.
Sem Melhora na Sonolência Diurna
Apesar da melhora nos parâmetros respiratórios:
- Não houve redução significativa na Epworth Sleepiness Scale (ESS)
- Diferença ajustada: −0,42 pontos (p=0,708)
Esse dado reforça que a sonolência diurna em pacientes com DPOC pode ter múltiplos determinantes, nem sempre diretamente correlacionados à AOS.
Impacto Limitado, Mas Positivo, na Qualidade de Vida
A avaliação por SF-36v2 mostrou melhora em domínios específicos:
- Percepção geral de saúde
- Limitações físicas (role physical)
No entanto:
- Os ganhos foram modestos
- Em alguns casos, próximos ao limiar de relevância clínica
Implicações Clínicas: Além do CPAP
O CPAP permanece o padrão-ouro para AOS, mas:
- Adesão frequentemente é baixa
- Não atua sobre obesidade subjacente
Os autores sugerem que a liraglutida pode atuar como:
- Terapia adjuvante ao CPAP
- Ou alternativa em pacientes selecionados
Especialmente em cenários de obesidade e multimorbidade respiratória.
Limitações Importantes
- Amostra pequena (n=40; apenas 30 completaram)
- Análise exploratória (não desenhada para AOS como desfecho primário)
- Possíveis vieses por diferenças basais e uso de CPAP
Os resultados devem ser interpretados como hipótese-geradores, demandando validação em estudos maiores.
Conclusão
A liraglutida demonstrou:
- Redução significativa da gravidade da AOS (AHI e ODI)
- Melhora discreta em qualidade de vida
- Sem impacto na sonolência diurna
Esses achados reforçam o potencial dos agonistas de GLP-1 como estratégia terapêutica integrada em pacientes com obesidade, DPOC e AOS — um fenótipo clínico complexo e de alto risco.
Referências
Wolsing SK, Altintas Dogan AD, Juhl CB, Hess S, Jensen TT, Bladbjerg EM, et al. Exploratory Analysis of Liraglutide Effects on Obstructive Sleep Apnea and Health-Related Quality of Life in Individuals With Obesity and COPD: A Secondary Analysis of a Randomised Controlled Trial. Clin Obes. 2026;16(2):e70079. doi: 10.1111/cob.70079.





