Redução precoce de antipsicóticos após o primeiro episódio psicótico aumenta risco inicial de recaída, mas melhora funcionamento a longo prazo

Um dos maiores ensaios clínicos sobre o tema reacende o debate sobre quando reduzir ou suspender antipsicóticos após o primeiro episódio psicótico (PEP).

O estudo HAMLETT acompanhou 347 pacientes em remissão de PEP durante 4 anos, comparando dois grupos:

  1. Redução precoce ou descontinuação (DRD) dos antipsicóticos em até 12 meses após remissão;
  2. Tratamento de manutenção com dose estável no mesmo período.

Principais resultados

  • No curto prazo (1º ano):
    • A redução precoce esteve associada a maior risco de recaída (OR = 2,84; IC 95% 1,08–7,66; p = 0,04).
    • Pacientes também relataram piora na qualidade de vida (β = –3,31; IC 95% –6,34 a –0,29; p = 0,03).
  • No longo prazo (3–4 anos):
    • Houve melhora significativa no funcionamento global (GAF) em comparação ao grupo de manutenção:
      • 3 anos: β = 3,61 (IC 95% 0,28–6,95; p = 0,03)
      • 4 anos: β = 6,13 (IC 95% 2,03–10,22; p = 0,003)
    • Tendência de menor gravidade de sintomas (PANSS) ao final do seguimento (p = 0,06).
    • A incidência de eventos adversos graves foi semelhante entre grupos, mas ocorreram 3 suicídios no grupo DRD versus 1 no grupo de manutenção.

Interpretação clínica

Os autores destacam que a melhora funcional tardia não se deve à menor dose medicamentosa em si — já que as doses médias se igualaram após o primeiro ano —, mas possivelmente a um efeito de aprendizado e autonomia terapêutica:

Essa abordagem “educativa”, porém, exige cuidadosa ponderação dos riscos de recaída e suicídio, especialmente nos primeiros meses após a redução.

Metodologia em síntese

  • Desenho: Ensaio clínico randomizado pragmático, multicêntrico (26 centros especializados na Holanda).
  • População: 347 pacientes (69,5% homens; idade média 27,9 anos) em remissão clínica de 3–6 meses.
  • Diagnósticos incluídos: Esquizofrenia, esquizofreniforme, esquizoafetivo e psicose breve.
  • Intervenção: Tapering hiperbólico supervisionado até suspensão ou reaparecimento de sintomas.
  • Seguimento: 48 meses.

Implicações para a prática psiquiátrica

  • A manutenção do tratamento antipsicótico por pelo menos 1 ano após remissão continua sendo a conduta mais segura.
  • Reduções graduais podem ser consideradas em pacientes motivados e clinicamente estáveis, sob estreita supervisão médica.
  • Mulheres parecem apresentar menos efeitos negativos e mais benefícios com a redução gradual, sugerindo possível sobredosagem relativa.
  • A decisão deve ser individualizada, levando em conta perfil clínico, adesão e rede de suporte.

Conclusão

A redução precoce de antipsicóticos após o primeiro episódio psicótico aumenta o risco de recaída no primeiro ano, mas pode melhorar o funcionamento e a autonomia em longo prazo, quando realizada de forma planejada e supervisionada.

Esses achados reforçam que o equilíbrio entre prevenção de recaídas e recuperação funcional deve ser o eixo central das decisões clínicas em psicose inicial.

Referência
Sommer IE, de Beer F, Gangadin S, et al. Early Dose Reduction or Discontinuation vs Maintenance Antipsychotics After First Psychotic Episode Remission: A Randomized Clinical Trial. JAMA Psychiatry. Published online October 01, 2025. doi:10.1001/jamapsychiatry.2025.2525