Um estudo multicêntrico publicado online em 9 de fevereiro de 2026 no JAMA Neurology avaliou a efetividade e segurança comparativa de quatro antiepilépticos de nova geração — brivaracetam, cenobamato, lacosamida e perampanel — como terapia adjuvante em adultos com epilepsia focal farmacorresistente.
Contexto Clínico
A tomada de decisão terapêutica na epilepsia focal resistente permanece, em grande parte, empírica, dada a escassez de estudos comparativos diretos entre os novos antisseizure medications (ASMs). Dados de mundo real podem complementar ensaios clínicos randomizados, oferecendo informações sobre efetividade e segurança em populações mais heterogêneas.
Desenho do Estudo
Trata-se de uma análise agrupada multicêntrica de quatro estudos retrospectivos baseados em revisão de prontuários, conduzidos entre janeiro de 2017 e janeiro de 2024. Foram incluídos pacientes com idade ≥16 anos, diagnóstico de epilepsia focal farmacorresistente segundo critérios da International League Against Epilepsy, acompanhados em 71 centros especializados.
Foram analisadas 1.993 prescrições referentes a 1.949 pacientes (53,2% mulheres), com idade mediana de 42 anos (IQR 29–55) no momento da prescrição.
Distribuição das prescrições:
- Brivaracetam: 953 (47,8%)
- Perampanel: 607 (30,5%)
- Lacosamida: 241 (12,1%)
- Cenobamato: 192 (9,6%)
Desfechos e Análise Estatística
O desfecho primário foi taxa de respondedores em 6 meses (≥50% de redução da frequência de crises). Entre os desfechos secundários incluíram-se taxa de respondedores em 12 meses, liberdade de crises (≥3 meses aos 6 meses e ≥6 meses aos 12 meses) e retenção do tratamento em 12 meses. Modelos lineares mistos generalizados ajustaram variáveis demográficas e clínicas, utilizando o cenobamato como referência.
Principais Resultados
Após ajuste estatístico, o cenobamato demonstrou maior probabilidade de resposta ≥50% em 6 meses quando comparado a:
- Brivaracetam (OR 0,18; IC95% 0,12–0,28; P<0,001)
- Perampanel (OR 0,26; IC95% 0,16–0,42; P<0,001)
- Lacosamida (OR 0,29; IC95% 0,17–0,49; P<0,001)
Os resultados foram consistentes nos desfechos de 12 meses, incluindo taxas de respondedores e liberdade de crises, com superioridade do cenobamato em relação aos demais fármacos.
Quanto à retenção terapêutica em 12 meses, o cenobamato apresentou maior probabilidade de permanência em tratamento em comparação com brivaracetam (OR 0,43; IC95% 0,26–0,69; P<0,001) e perampanel (OR 0,56; IC95% 0,32–0,99; P=0,047), sem diferença significativa versus lacosamida.
Perfil de Segurança
O cenobamato esteve associado à maior incidência de eventos adversos durante o seguimento (57,8%), enquanto a lacosamida apresentou a menor taxa (14,8%).
Implicações Clínicas
Os autores concluem que, em cenário de mundo real e em uma ampla coorte de pacientes com epilepsia focal farmacorresistente, o cenobamato demonstrou superioridade em termos de efetividade a longo prazo quando comparado a brivaracetam, lacosamida e perampanel. Entretanto, essa vantagem deve ser ponderada frente à maior incidência de efeitos adversos.
Em um contexto clínico no qual múltiplas falhas terapêuticas prévias são comuns, os achados oferecem subsídio relevante para decisões individualizadas, especialmente quando o objetivo prioritário é maximizar controle de crises e retenção terapêutica, mantendo vigilância estreita para tolerabilidade.
Referências
- Cerulli Irelli E, Roberti R, Borioni MS, Anzellotti F, Belcastro V, Beretta S, et al. Comparative effectiveness of brivaracetam, cenobamate, lacosamide, and perampanel in focal epilepsy. JAMA Neurol. 2026 Feb 9:e255625. doi:10.1001/jamaneurol.2025.5625.





