Exposição ao flúor está associada à redução do QI infantil, aponta meta-análise internacional

Uma meta-análise abrangente publicada no JAMA Pediatrics avaliou 74 estudos epidemiológicos conduzidos em 10 países e demonstrou associação inversa consistente entre exposição ao flúor e QI infantil, tanto em medidas pré-natais quanto pós-natais.

O estudo, conduzido por pesquisadores do National Institute of Environmental Health Sciences (NIEHS), analisou mais de 20 mil crianças em estudos com medidas grupais e 4.475 crianças com medidas individuais (principalmente fluoreto urinário).

Principais achados

1. Crianças expostas a níveis mais altos de flúor apresentaram QI significativamente menor

  • Meta-análise de 59 estudos com medidas grupais:
    • SMD = –0.45 (IC 95% –0.57 a –0.33; p < 0.001)
    • Resultado consistente em diferentes países, faixas etárias e métodos de avaliação cognitiva.

2. Relação dose-resposta

  • Para flúor na água:
    • Associação inversa persistiu em exposições < 4 mg/L e < 2 mg/L.
    • A associação não foi significativa quando restrita a < 1,5 mg/L — limite recomendado pela OMS.
  • Para fluoreto urinário:
    • A associação inversa permaneceu em todos os níveis analisados, incluindo < 1,5 mg/L.

3. Medidas individuais mostram queda média de 1,63 ponto de QI por aumento de 1 mg/L no fluoreto urinário

  • Em análises com estudos de baixo risco de viés, a redução foi de:
    • –1,14 ponto de QI por 1 mg/L.

Segundo os autores, embora pequenas em nível individual, essas reduções podem ter impacto populacional relevante, deslocando a distribuição de QI e ampliando o número de crianças em faixas cognitivas mais baixas.

Implicações para saúde pública

  • A maior parte dos estudos foi conduzida em áreas com níveis naturalmente altos de flúor na água, especialmente na China, Índia e México.
  • Nos EUA, não há dados nacionais de fluoreto urinário, embora milhões de residentes estejam expostos a concentrações de flúor superiores a 1,5 mg/L.
  • Atualmente, as recomendações de saúde se concentram na prevenção de fluorose dentária, sem diretrizes específicas relacionadas ao neurodesenvolvimento.

Os autores destacam que os resultados não avaliam diretamente os benefícios odontológicos da fluoretação, mas sugerem necessidade de novas avaliações risco-benefício, especialmente em gestantes e crianças pequenas.

Limitações destacadas pelos autores

  • Grande heterogeneidade entre estudos.
  • Muitos estudos com risco de viés elevado.
  • Escassez de pesquisas em países com fluoretação artificial em níveis menores, como EUA e Brasil.
  • Menor precisão em concentrações baixas quando o flúor foi estimado apenas pela água potável.

Apesar disso, os autores enfatizam a consistência robusta dos achados em múltiplas análises e subgrupos.

Conclusão

A meta-análise oferece evidências consistentes de que a exposição ao flúor — especialmente quando medida por fluoreto urinário — está associada a redução mensurável no QI infantil, com padrão dose-dependente. Os resultados reforçam a necessidade de políticas públicas que considerem potenciais riscos neurodesenvolvimentais ao definir limites de exposição ao flúor.

Referência

Taylor KW, Eftim SE, Sibrizzi CA, et al. Fluoride Exposure and Children’s IQ Scores: A Systematic Review and Meta-Analysis. JAMA Pediatr. 2025;179(3):282–292. doi:10.1001/jamapediatrics.2024.5542