Um amplo estudo de coorte com adultos com diabetes tipo 2 (DM2) encontrou associação entre o início de estatinas e menor risco de mortalidade por todas as causas e de eventos cardiovasculares maiores, mesmo entre indivíduos com baixo risco cardiovascular basal no curto prazo. Os autores destacam ainda um perfil de segurança favorável, com pouco ou nenhum aumento de miopatia ou disfunção hepática, embora mialgia tenha sido mais frequente em quem iniciou estatina.
A análise foi publicada recentemente no Annals of Internal Medicine e discutida pelo Medscape Medical News, com dados do banco IQVIA Medical Research Data UK. Segundo Eric Yuk Fai Wan (Universidade de Hong Kong), os resultados chamam atenção pela consistência entre estratos de risco: “Mesmo reduções modestas no risco absoluto em pacientes de baixo risco são clinicamente significativas, especialmente considerando o excelente perfil de segurança”, afirmou ao Medscape.
Como Foi o Estudo
Os pesquisadores utilizaram registros do Reino Unido e incluíram adultos de 25 a 84 anos com diagnóstico de DM2 entre 2005 e 2016, sem histórico prévio de doença cardiovascular estabelecida (como infarto, AVC ou insuficiência cardíaca) e sem algumas comorbidades relevantes (como doença hepática prévia ou miopatia).
Os participantes foram estratificados pelo QRISK3 em quatro categorias de risco cardiovascular em 10 anos: baixo (<10%), intermediário (10%–19%), alto (20%–29%) e muito alto (≥30%). Após pareamento por escore de propensão (1:4), os autores compararam iniciadores de estatina com não iniciadores ao longo de um seguimento mediano de aproximadamente 6 a 7 anos.
Principais Resultados
Na análise por intenção de tratar, o início de estatinas se associou a reduções absolutas do risco de mortalidade por todas as causas em 10 anos de:
- 0,53% (baixo risco)
- 1,88% (intermediário)
- 2,74% (alto)
- 4,30% (muito alto)
Para eventos cardiovasculares maiores, as reduções absolutas em 10 anos foram de:
- 0,83% (baixo risco)
- 2,14% (intermediário)
- 2,59% (alto)
- 4,57% (muito alto)
Em geral, não houve diferença detectável em miopatia ou disfunção hepática, mas mialgia foi mais comum no grupo que iniciou estatina. Entre os pacientes de menor risco cardiovascular, o benefício foi mais evidente quando o LDL basal era ≥ 2,6 mmol/L.
O Que Isso Muda na Prática?
As recomendações de estatinas em DM2 variam entre diretrizes. Enquanto algumas orientações são mais “universais” para faixas etárias específicas, outras condicionam a indicação ao risco cardiovascular estimado em 10 anos. Para os autores, os achados sustentam uma estratégia mais inclusiva e podem estimular reavaliação de “limites rígidos” de risco em certos documentos de prática clínica, ainda que isso exija replicação em outras populações.
Comentando o trabalho, Naveed Sattar (Universidade de Glasgow) avaliou que o estudo é bem conduzido, mas lembrou que, por ser observacional, não elimina completamente confundimento residual. Ainda assim, ele considerou os resultados em grande parte consistentes com evidências de ensaios randomizados e meta-análises, ressaltando que, com estatinas mais baratas e seguras, seu uso pode ser considerado em níveis progressivamente menores de risco — sem necessariamente implicar mudança imediata das diretrizes.
Segurança e Adesão: Pontos-Chave
Os autores enfatizam que a adesão de longo prazo é crucial, já que parte dos benefícios se consolida após anos de uso. A mensagem prática proposta é: considerar estatinas na maioria dos adultos com DM2, especialmente quando o LDL está elevado, mantendo a tomada de decisão compartilhada e vigilância clínica para sintomas musculares.
Referência
Yan VKC, Wan EYF. Statins show benefit in T2D even with low baseline CVD risk. Medscape Medical News [Internet]. 2026 [citado 12 jan 2026]. Disponível em: https://www.medscape.com/viewarticle/statins-show-benefit-t2d-even-low-baseline-cvd-risk-2026a10000bl





