Um estudo publicado em janeiro de 2026 no JAMA indica que crianças expostas à infecção materna por SARS-CoV-2 durante a gestação apresentaram maior risco de diagnóstico de transtornos do neurodesenvolvimento até os 3 anos de idade, em comparação com crianças não expostas.
A pesquisa analisou dados de um grande sistema de saúde dos Estados Unidos durante o período inicial da pandemia, quando a vacinação ainda não estava amplamente disponível, trazendo novas evidências sobre possíveis efeitos de longo prazo da COVID-19 na gravidez.
O estudo retrospectivo incluiu 18.124 nascidos vivos, acompanhados entre março de 2020 e maio de 2021 no sistema Mass General Brigham. Todas as gestantes foram submetidas a testagem obrigatória por PCR para SARS-CoV-2 no momento do parto.
- 861 crianças foram expostas à infecção materna por COVID-19 durante a gestação
- As crianças foram acompanhadas até os 3 anos de idade
- O desfecho analisado foi o diagnóstico clínico de transtornos do neurodesenvolvimento
Os diagnósticos mais frequentes incluíram:
- transtornos de fala e linguagem,
- transtorno do desenvolvimento motor,
- transtorno do espectro autista,
- outros transtornos do desenvolvimento psicológico.
Principais Resultados
- 16% das crianças expostas à COVID-19 intrauterina receberam diagnóstico de transtorno do neurodesenvolvimento até os 3 anos
- Entre crianças não expostas, a taxa foi de aproximadamente 10%
Após ajuste para múltiplos fatores de confusão — incluindo idade materna, raça/etnia, tipo de seguro, sexo da criança, prematuridade e status vacinal — a exposição intrauterina ao SARS-CoV-2 foi associada a:
- 29% maior chance de diagnóstico de transtorno do neurodesenvolvimento
(OR ajustado 1,29)
O risco foi mais elevado em meninos e pareceu mais pronunciado quando a infecção ocorreu no terceiro trimestre, período crítico para crescimento neuronal e formação de sinapses.
Interpretação dos Autores
Os pesquisadores ressaltam que o SARS-CoV-2 raramente infecta diretamente o feto. A hipótese central é que os efeitos observados estejam relacionados à ativação do sistema imune materno, mecanismo já descrito em outros modelos de infecção viral durante a gestação.
Segundo a Dra. Andrea Edlow, especialista em medicina materno-fetal e autora sênior do estudo:
“A ativação imune materna parece ser uma via comum que pode tornar o cérebro fetal mais vulnerável a desfechos adversos do neurodesenvolvimento.”
Os autores enfatizam que os resultados não comprovam causalidade, mas indicam um marcador de risco aumentado, reforçando a importância do acompanhamento longitudinal dessas crianças.
Implicações Clínicas
- Reforço da prevenção da COVID-19 durante a gestação, incluindo vacinação
- Importância do seguimento do neurodesenvolvimento em crianças expostas intraútero
- Necessidade de estudos maiores para avaliar:
- impacto da gravidade da infecção,
- papel da vacinação materna,
- diferenças por trimestre de exposição.
Especialistas independentes alertam que fatores maternos não totalmente mensurados podem contribuir para o risco observado, recomendando cautela na interpretação dos achados.
Conclusão
O estudo sugere que a infecção por COVID-19 durante a gravidez está associada a um aumento modesto, porém significativo, no risco de transtornos do neurodesenvolvimento na primeira infância. Os achados reforçam a importância de estratégias preventivas na gestação e de monitoramento do desenvolvimento infantil após exposição intrauterina ao SARS-CoV-2.
Referência
Anderer S. COVID-19 in pregnancy linked with risk of neurodevelopmental disorders in early childhood. JAMA. 2026 Jan 2. doi:10.1001/jama.2025.23090. Epub ahead of print. PMID: 41481306.





