Terapia Hormonal e o Coração Feminino: Solução ou Dilema? – DrHub

Terapia Hormonal e o Coração Feminino: Solução ou Dilema?

Estimulação Cerebral Profunda e Síndrome de Tourette: Evidências Atuais
02/04/2025
Estimulação Cerebral Profunda e Síndrome de Tourette: Evidências Atuais
02/04/2025

As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte entre mulheres nos Estados Unidos, superando o câncer de mama em todas as faixas etárias. Estudos sugerem que a proteção hormonal natural das mulheres pré-menopáusicas — especialmente pelo estrogênio — retarda o aparecimento das doenças cardíacas em cerca de 10 anos em relação aos homens. Com a menopausa, esse escudo protetor se rompe, e o risco cardiovascular se intensifica. Assim, a Terapia Hormonal (TH) surgiu como uma promissora aliada — mas os resultados não foram tão simples.


Evidências Iniciais Promissoras

Estudos observacionais e pesquisas com animais mostraram benefícios expressivos da TH iniciada logo após a menopausa: melhora no perfil lipídico, vasodilatação por óxido nítrico, e efeitos anti-inflamatórios. Dados do famoso Nurses’ Health Study indicaram redução de até 40% nos eventos de infarto do miocárdio com uso regular de TH, especialmente se iniciada na fase perimenopáusica. Parecia o começo de uma revolução.


Mas os Ensaios Randomizados Mudaram o Rumo

Entretanto, grandes estudos clínicos randomizados, como o WHI (Women’s Health Initiative) e o HERS (Heart and Estrogen/progestin Replacement Study), frustraram as expectativas. Em vez de benefícios, encontraram aumento do risco de eventos tromboembólicos, AVC e câncer de mama, especialmente quando a TH era iniciada tardiamente, cerca de 10 anos após a menopausa. Isso evidenciou que o “timing” da terapia hormonal é crucial: quanto mais tarde se inicia, menor (ou inexistente) é o benefício cardiovascular — e maiores são os riscos.


Fatores que Influenciam os Resultados

O artigo destaca a importância de variáveis como:

  • Forma de administração (oral x transdérmica): via transdérmica parece menos inflamatória e menos trombogênica.
  • Dose do estrogênio: doses mais baixas podem ter melhor perfil risco-benefício.
  • Composição hormonal (com ou sem progesterona): afeta risco de câncer e efeitos vasculares.
  • Genética e comorbidades individuais, como diabetes ou uso concomitante de estatinas.

O Futuro da Terapia Hormonal: Uma Nova Esperança?

Dois ensaios clínicos em andamento, o KEEPS e o ELITE, investigam o impacto da TH iniciada precocemente, com doses e vias diferentes. Se confirmarem os benefícios cardiovasculares em mulheres jovens e saudáveis, poderemos reescrever as diretrizes.

Mas ainda paira a dúvida: estamos diante de uma terapia subestimada por causa do momento errado em que foi aplicada — ou os riscos sempre superam os benefícios? A terapia hormonal poderá, um dia, ser uma aliada segura na proteção do coração feminino? O tempo — e os estudos — dirão.

Autor: Dr Marcelo Tavares – Cardiologista e Ecocardiografista

CRM Nº 9932 | RQE Nº 5331 (Ecocardiografia) | RQE Nº 5330 (Cardiologia)
Pós-doutor em cardiologia pelo Incor/USP, Dr. Marcelo é professor de semiologia na UFPB e editor-chefe da Cardiovascular Imaging.
Membro do Advisory Board Médico DrHub

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